Dossiê · Brasil

Arte
contemporânea
no Brasil.

Corpo, memória e território em imagens que propõem outras maneiras de olhar. Seis percursos, dezoito artistas e perguntas para continuar a pesquisa.

Explorar percursos ↓
Divisor, ação coletiva de Lygia Pape
Lygia Pape, Divisor, 1968

Um percurso por obras realizadas em diferentes regiões e momentos da arte brasileira. Cada eixo aproxima trabalhos sem apagar suas diferenças: as perguntas são pontos de partida para observar as imagens e seus contextos.

18 obras
18 artistas
6 percursos

Percurso 01 / 06

Participar da obra

O que acontece quando o público deixa de apenas observar?

Na experiência neoconcreta, a obra ganha outras formas quando encontra o corpo de quem a manipula, veste ou atravessa. A participação desloca a ideia de um objeto artístico concluído.

Bicho, obra de Lygia Clark
Imagem: Associação Cultural Lygia Clark
01.1

Lygia Clark

Bicho

1960 · Escultura articulável

Placas de metal ligadas por dobradiças podem assumir diferentes posições. O gesto de quem manipula não executa uma instrução única: ele encontra as possibilidades e resistências da própria estrutura.

Para olhar

Como cada posição do Bicho modifica a relação entre escultura e espectador?

Fonte e documentação ↗
Parangolés, obra de Hélio Oiticica
Imagem: Wikimedia Commons
01.2

Hélio Oiticica

Parangolés

a partir de 1964 · Capas, estandartes e ações

A cor e o tecido deixam a parede e ganham movimento no corpo. A relação de Oiticica com a Mangueira é parte decisiva dessa experiência, na qual dança e presença transformam a obra.

Para olhar

O que uma fotografia da capa registra — e o que só a ação de vesti-la permite experimentar?

Fonte e documentação ↗
Divisor, obra de Lygia Pape
Imagem: The Met
01.3

Lygia Pape

Divisor

1968 · Ação coletiva

Um tecido amplo recebe as cabeças de muitas pessoas através de aberturas. A forma coletiva se move conforme seus participantes caminham e negociam seus passos.

Para olhar

Como a obra torna visível a relação entre liberdade individual e movimento coletivo?

Fonte e documentação ↗

Percurso 02 / 06

Corpo e repressão

Como uma imagem pode tornar a violência impossível de ignorar?

Em contextos de censura e repressão, artistas recorreram ao corpo, a materiais perecíveis e a ações públicas. O modo como a obra foi documentada também faz parte de sua história.

Trouxas Ensanguentadas, obra de Artur Barrio
Imagem: Itaú Cultural
02.1

Artur Barrio

Trouxas Ensanguentadas

1970 · Intervenção e registro

Trouxas feitas com materiais orgânicos foram deixadas em espaços públicos e mobilizaram reações de quem as encontrou. A obra cria uma situação de incerteza entre vestígio, ameaça e denúncia.

Para olhar

Que sentidos surgem quando não é possível distinguir imediatamente obra e acontecimento?

Fonte e documentação ↗
Antonio ManuelO corpo é a obraVer registro da obra ↗
02.2

Antonio Manuel

O corpo é a obra

1970 · Ação no museu

Após ter sua proposta recusada pelo júri de um salão, o artista apresentou o próprio corpo no dia da abertura. A ação expôs as regras que autorizam ou rejeitam uma obra.

Para olhar

Quem decide o que pode entrar em uma exposição?

Fonte e documentação ↗
Marca registrada, obra de Letícia Parente
Imagem: Galeria Athena
02.3

Letícia Parente

Marca registrada

1975 · Videoarte

A artista costura a expressão “Made in Brasil” na sola do próprio pé. O vídeo aproxima inscrição comercial, dor e identidade nacional em um gesto íntimo e contundente.

Para olhar

O que muda quando uma marca de origem é gravada no corpo?

Fonte e documentação ↗

Percurso 03 / 06

Memória negra e arquivo

Que imagens podem enfrentar o apagamento histórico?

A memória não está simplesmente guardada em documentos. Ela também é construída ao buscar parentes, confrontar narrativas oficiais e tornar visíveis as marcas da escravização e de suas continuidades.

Ayrson HeráclitoTransmutação da carneVer registro da obra ↗
03.1

Ayrson Heráclito

Transmutação da carne

2000 · Performance e registro

Carne, fogo e ritual compõem uma elaboração sensível da violência histórica da escravização. A performance exige atenção aos materiais e aos saberes mobilizados pelo artista.

Para olhar

Como uma ação ritual pode trabalhar uma história que não se encerrou?

Fonte e documentação ↗
Sidney AmaralIncômodoVer registro da obra ↗
03.2

Sidney Amaral

Incômodo

2014 · Conjunto de desenhos

O conjunto reúne figuras e episódios que interrompem uma narrativa pacificada da história brasileira. Seu título propõe uma reação diante da imagem: permanecer com o desconforto e perguntar o que ele revela.

Para olhar

Que relações entre passado e presente aparecem na montagem dos desenhos?

Fonte e documentação ↗
Pontes sobre abismos, obra de Aline Motta
Imagem: Museu de Arte do Rio
03.3

Aline Motta

Pontes sobre abismos

2017 · Vídeo e pesquisa de arquivo

Fotografias de família, viagens e documentos acompanham uma investigação sobre ancestralidade. O arquivo não oferece uma origem intacta; a artista o atravessa para estabelecer relações entre pessoas e lugares.

Para olhar

Como a obra transforma lacunas da história familiar em caminhos de pesquisa?

Fonte e documentação ↗

Percurso 04 / 06

Arte indígena e continuidade

Como a criação mantém e transforma conhecimentos?

Essas obras afirmam saberes próprios e vínculos com comunidades, rituais, línguas e territórios. Seus modos de existência pedem atenção às palavras das artistas e às relações coletivas que sustentam a criação.

Glicéria TupinambáManto TupinambáVer registro da obra ↗
04.1

Glicéria Tupinambá

Manto Tupinambá

projeto iniciado em 2006 · Confecção e ativação coletiva

Os mantos confeccionados com a comunidade atualizam uma tecnologia e uma memória Tupinambá. Sua circulação envolve território, transmissão de saberes e a pergunta sobre o lugar adequado para recebê-los.

Para olhar

O que muda quando pensamos o manto por suas relações e ativações, além de sua exibição?

Fonte e documentação ↗
Daiara TukanoKahtiri EoroVer registro da obra ↗
04.2

Daiara Tukano

Kahtiri Eoro

2021 · Instalação e imagem

A obra integra a pesquisa visual e espiritual da artista Yepá Mahsã. Para estudá-la, vale partir de sua apresentação e dos termos que a própria artista escolhe, sem reduzir as formas a símbolos genéricos.

Para olhar

Que outras perguntas surgem quando buscamos primeiro a voz da artista?

Fonte e documentação ↗
Parixara, obra de Carmézia Emiliano
Imagem: MASP
04.3

Carmézia Emiliano

Parixara

2020 · Pintura

A composição retrata uma celebração macuxi ligada ao agradecimento à natureza. Pessoas, construções e árvores se articulam em uma pintura de forte ritmo visual e sentido comunitário.

Para olhar

Como a disposição das figuras transforma uma cena de celebração em narrativa coletiva?

Fonte e documentação ↗

Percurso 05 / 06

Território e natureza

Como olhar um lugar sem tratá-lo como cenário?

Fotografia, coleta e pesquisa botânica mostram que um território é atravessado por pessoas, formas de vida, deslocamentos e conflitos. A relação com a natureza assume sentidos distintos em cada obra.

Marcados, obra de Claudia Andujar
Imagem: MoMA / Claudia Andujar
05.1

Claudia Andujar

Marcados

1981–1983 · Série fotográfica

Os retratos numerados surgiram em ações de saúde junto aos Yanomami e depois foram apresentados como série artística. Ler sua história implica considerar tanto a fotografia quanto a luta pelo território e pela vida de quem foi fotografado.

Para olhar

Como muda o sentido de uma imagem quando conhecemos a finalidade inicial de sua produção?

Fonte e documentação ↗
Brígida BaltarA coleta da neblinaVer registro da obra ↗
05.2

Brígida Baltar

A coleta da neblina

a partir de 1996 · Ação e fotografia

A artista tenta recolher algo que se desfaz: a neblina. Os registros preservam a ação e convidam a perceber tempo, clima e fragilidade em vez de uma paisagem estável.

Para olhar

O que significa tentar guardar uma matéria quase impossível de conservar?

Fonte e documentação ↗
Seeds of Change, obra de Maria Thereza Alves
Imagem: Maria Thereza Alves
05.3

Maria Thereza Alves

Seeds of Change

projeto iniciado em 1999 · Pesquisa e instalação

Sementes transportadas por navios e depositadas em portos revelam histórias de circulação, comércio e colonização. O projeto, desenvolvido em diferentes cidades, pergunta quem determina o que é considerado nativo de um lugar.

Para olhar

Como uma semente pode funcionar como documento histórico?

Fonte e documentação ↗

Percurso 06 / 06

Imagem, reprodução e tecnologia

O que acontece quando uma imagem é copiada, deslocada ou interrompida?

Postais, sombras e vídeo digital permitem investigar os meios pelos quais imagens circulam. A crítica se faz pelas próprias operações de reproduzir, citar e alterar.

Brasil nativo/Brasil alienígena, obra de Anna Bella Geiger
Imagem: MASP
06.1

Anna Bella Geiger

Brasil nativo/Brasil alienígena

1976–1977 · Fotografia e cartão-postal

A artista justapõe cartões-postais com imagens dos Bororo a fotografias encenadas por ela. A repetição irônica põe em questão os modos de fabricar uma imagem exótica do Brasil.

Para olhar

Quem produziu a imagem original e para qual público ela foi feita?

Fonte e documentação ↗
In Absentia (M.D.), obra de Regina Silveira
Imagem: Regina Silveira
06.2

Regina Silveira

In Absentia (M.D.)

1983 · Instalação

Sombras projetadas evocam obras ausentes da história da arte. A presença física da imagem e a ausência do objeto citado desestabilizam nossa confiança na representação.

Para olhar

É possível reconhecer uma obra quando ela aparece apenas como vestígio?

Fonte e documentação ↗
Cinema Lascado: Minhocão, obra de Giselle Beiguelman
Imagem: Giselle Beiguelman
06.3

Giselle Beiguelman

Cinema Lascado: Minhocão

2010 · Videoinstalação

Imagens do elevado paulistano são atravessadas por falhas e descontinuidades digitais. A cidade e o arquivo eletrônico aparecem como superfícies sujeitas a desgaste e transformação.

Para olhar

Como um erro da imagem pode ajudar a pensar as mudanças da cidade?

Fonte e documentação ↗

Para continuar

Uma obra abre
outras perguntas.

Que corpo pode participar? Quem produz os arquivos? Como uma imagem nomeia um território? Volte às obras, compare procedimentos e investigue as vozes presentes em cada uma delas.

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