Cindy Sherman interpreta uma jovem de cabelos curtos e lenço escuro diante de um edifício urbano, fotografada de baixo para cima em preto e branco.
Cindy Sherman, Untitled Film Still #58, 1980, da série Untitled Film Stills, 1977–1980. Impressão em gelatina e prata. Reprodução para fins educativos.

núcleo 07

Apropriação, fotografia e crítica institucional

Cindy Sherman

Untitled Film Stills

1977–1980 · Série de fotografias em preto e branco, impressões em gelatina e prata
Série de 70 fotografias; dimensões variáveis

chave de leitura

A fotografia parece guardar o instante decisivo de um filme — mas esse filme nunca existiu.

Em Untitled Film Stills, Cindy Sherman assume diferentes papéis femininos e constrói cenas que lembram fotografias de divulgação do cinema das décadas de 1950 e 1960. Figurino, maquiagem, enquadramento, luz e cenário produzem personagens reconhecíveis — a jovem recém-chegada à cidade, a dona de casa, a mulher solitária, a artista, a fugitiva — sem pertencerem a nenhuma narrativa específica. A familiaridade nasce dos códigos visuais que o cinema e a publicidade fizeram circular.

A imagem de abertura é Untitled Film Still #58, de 1980. O ângulo baixo faz o edifício crescer atrás da personagem, enquanto o lenço em movimento e o olhar dirigido para fora do quadro sugerem que algo acaba de acontecer — ou está prestes a acontecer. Sherman oferece pistas, mas retira a explicação. Cabe ao espectador completar a cena e perceber que essa interpretação também mobiliza histórias, clichês e expectativas aprendidas diante das imagens.

Embora Sherman use o próprio corpo, as fotografias não funcionam como confissões autobiográficas nem como retratos de uma identidade estável. A artista é simultaneamente autora, modelo, diretora, figurinista e personagem. Ao ocupar tipos femininos construídos pela cultura visual, ela evidencia que gênero e identidade também são encenados por poses, roupas, gestos e modos de olhar. A obra não revela quem Cindy Sherman é; investiga como as imagens nos ensinam a reconhecer quem uma mulher deveria parecer ser.

montagem, tempo e narrativa

A sensação de que
algo aconteceu.

Existe ainda uma característica formal muito interessante para analisar: Sherman escolhe frequentemente o instante intermediário.

Não sabemos exatamente o que aconteceu antes da fotografia nem o que acontecerá depois. Uma mulher olha para fora do quadro; outra parece esperar alguém; outra parece ter acabado de ouvir alguma coisa; outra está sozinha em um quarto; outra caminha por uma rua e olha para trás.

Isso produz uma narrativa incompleta. A fotografia funciona como um verdadeiro fotograma cinematográfico.

antes[ fotografia ]depois

Só que Sherman elimina o antes e o depois. O espectador precisa imaginá-los.

Por isso, as fotografias são profundamente narrativas, embora não contem uma história completa. Nós projetamos histórias sobre aquelas mulheres utilizando justamente nosso repertório cinematográfico.

repertório produtivo

Do retrato como identidade
à imagem como papel cultural.

Sherman não copia uma cena de cinema específica. Ela apropria-se de seus formatos, atmosferas e tipos sociais para fabricar uma lembrança sem original. Assim, a fotografia deixa de confirmar uma pessoa ou um acontecimento e passa a examinar os repertórios que organizam nossa leitura das imagens.

01fotografia encenada02cinema e cultura visual03estereótipos femininos04identidade como construção05apropriação e citação

analisar

Desmonte
a ficção do enquadramento.

Observe separadamente o figurino, o penteado, o lenço, a direção do olhar, o ângulo da câmera e o edifício. Para cada elemento, anote que informação narrativa ele parece oferecer. Depois escreva duas legendas incompatíveis para a mesma fotografia e explique como a mudança de texto altera a personagem e a história imaginada.

Cindy Sherman e Untitled Film Stills · MoMA ↗