1965 · Tinta à base de água e cortes sobre tela Série dos Tagli
chave de leitura
O corte não representa o espaço: ele abre a pintura para o espaço real.
Sobre a superfície vermelha e monocromática, cinco cortes verticais interrompem aquilo que a tradição tratava como um plano contínuo. Não há uma cena representada nem uma profundidade produzida pela perspectiva. O que vemos é a própria tela — sua cor, sua tensão e sua espessura — atravessada por incisões que fazem surgir sombra e vazio.
Fontana chamava essas obras de tagli, os cortes. Embora pareçam impulsivos, eles resultam de um procedimento preciso: a superfície era preparada, cortada com uma lâmina e depois recebia uma gaze escura no verso. O gesto não equivale simplesmente a rasgar ou destruir uma pintura. Ele transforma o suporte em objeto e põe em relação o espaço diante da tela, a abertura do corte e o espaço que existe atrás dela.
O título Attese, no plural, acompanha a presença de vários cortes e pode ser traduzido como esperas ou expectativas. Cada fenda suspende o olhar entre superfície e profundidade. A pintura deixa de simular um espaço interno e passa a participar do espaço físico do observador, aproximando pintura, escultura e arquitetura — problema central do espacialismo formulado por Fontana no pós-guerra.
a verdade do espaço
Destruir a simulação. Recuperar uma verdade.
“Como escultor, destrói a escultura, modela e destrói. Como pintor, destrói a pintura: espalha tinta na tela e então corta-a, com um ou mais talhos rápidos e certeiros como uma navalha. É um gesto; mas o gesto que racha a esfera põe o espaço externo em comunicação com o espaço interno; o gesto que corta a tela restabelece a continuidade entre os espaços aquém e além do pano. Com esses gestos voluntariosos, irrevogáveis, Fontana destruiu a simulação espacial própria da escultura e a simulação espacial própria da pintura. E destruir uma simulação significa recuperar uma verdade.”
repertório produtivo
Ferir a superfície para abrir o espaço.
Em Fontana, a incisão não acrescenta uma imagem à tela. Ela retira matéria, rompe a continuidade do plano e permite que o vazio, a sombra e o espaço atrás do suporte passem a participar da obra.
01espacialismo02tagli03monocromia04materialidade do suporte05criação e destruição
analisar
Atravesse o plano.
Observe a direção, o intervalo e a extensão dos cinco cortes. Explique como eles produzem ritmo sem recorrer ao desenho e como transformam a tela, ao mesmo tempo, em superfície, objeto e passagem para o espaço real.
Uma obra não termina em si mesma: ela abre caminhos para outras imagens, tempos e conflitos.
Arte brasileira para o ENEM
Adriana Varejão
Azulejaria em carne viva, 1999
Esta obra amplia a discussão sobre participação, matéria e linguagem e espaço. Colocadas lado a lado, as imagens revelam como experiências de tempos distintos podem produzir perguntas em comum.
Esta obra amplia a discussão sobre participação, matéria e linguagem e espaço. Colocadas lado a lado, as imagens revelam como experiências de tempos distintos podem produzir perguntas em comum.
Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca-Cola, 1970
Esta obra amplia a discussão sobre participação, matéria e linguagem e espaço. Colocadas lado a lado, as imagens revelam como experiências de tempos distintos podem produzir perguntas em comum.