Number 1A, 1948, de Jackson Pollock: superfície clara coberta por fios, respingos e manchas de tinta em preto, branco, cinza, vermelho, amarelo e azul.
Jackson Pollock, Number 1A, 1948. Óleo e tinta esmalte sobre tela. The Museum of Modern Art, Nova York. Reprodução para fins educativos.

núcleo 01

A crise da pintura e do objeto artístico

Jackson Pollock

Number 1A, 1948

1948 · Óleo e tinta esmalte sobre tela
172,7 × 264,2 cm

chave de leitura

A pintura deixa de registrar uma imagem e passa a registrar uma ação.

Number 1A, 1948 nasce de uma mudança decisiva: Pollock abandona o cavalete, estende a tela sem chassis no chão e trabalha ao redor dela. Em vez de organizar figuras dentro de um espaço perspectivo, ele constrói uma superfície contínua de vestígios. Linhas, respingos, manchas e impressões de mãos não ilustram uma cena; tornam visíveis a duração, a velocidade e as interrupções do fazer.

No dripping, a tinta é derramada, gotejada ou lançada por pincéis, bastões e recipientes. Como o instrumento não precisa tocar diretamente a tela, cada fio de tinta responde simultaneamente ao movimento do braço, à gravidade, à viscosidade do material e à distância do corpo. O acaso participa, mas não significa ausência de decisão: Pollock controla ritmos, densidades, sobreposições e pausas enquanto circula pelos quatro lados da obra.

A composição all-over evita um centro hierárquico e faz com que toda a extensão da tela permaneça ativa. As marcas de mãos, visíveis sobretudo na região superior direita, recolocam o corpo dentro da obra: não como figura representada, mas como presença que deixou rastros. É nesse sentido que a pintura em ação desloca o interesse do resultado acabado para o acontecimento pictórico.

pintura como acontecimento

A obra não representa uma ação.
Ela é a própria ação.

“Um artista como Pollock, emblemático da pintura de ação, demonstrava que a ação da pintura, isto é, o que está sendo feito naquele instante, justifica a natureza de toda a construção pictórica. A ideia de uma ação presente, desvinculada de qualquer intenção de narrativa ou de inclusão na história, busca apagar o passado hegemônico europeu a fim de salientar o conceito arte per se (arte por si só).”

Kátia Canton
Trecho sobre Jackson Pollock e a pintura de ação.

repertório produtivo

Ler o gesto
como matéria.

A pintura em ação não transforma o gesto em espetáculo vazio: ela faz do tempo, do corpo e das propriedades da tinta os próprios elementos da composição.

01action painting02dripping03campo all-over04corpo e gesto05pós-guerra e deslocamento do centro artístico

analisar

Reconstrua
o movimento.

Escolha três tipos de marca — fio, respingo, mancha ou impressão de mão — e descreva o movimento corporal que cada uma parece registrar. Depois explique por que o dripping não pode ser reduzido à ideia de acaso.

Ficha da obra no MoMA ↗